Como citar
SANTIAGO, Iago Gusmão. Iconografia dos mapas. In: Corpus Toponymicum Bahiae, 2025. Disponível em: https://ctbahiae.com/index.php/iconografia-dos-mapas/. Acesso em: .
Iconografia cartográfica
Os mapas são importantes fontes para o estudo da toponímia por conterem uma quantidade expressiva de topônimos, além de informações como a localização e do tipo de entidade geográfica nomeada. Mas para interpretar os dados linguísticos de um mapa é necessário não apenas observar os nomes dos lugares, mas sua iconografia. Os mapas se tratam de documentos multissemióticos, cujos textos não verbais não apresentam apenas uma função estética, mas auxiliam no georreferenciamento (localização do ícone/nome), na classificação das entidades geográficas (ícones), na identificação correta significado e dos processos de nomeação em contextos ambíguos (ilustrações/ícones), possibilitando uma interpretação mais segura do processo denominativo.
Ícones
O conjunto de Mapas anônimos da Capitania da Bahia de Todos os Santos, de autoria atribuída a Anastasio de Sant’Anna, estima-se ter sido elaborado entre 1761-1807 (Havre, 2019). É composto por três cartogramas sendo que dois dos mapas se referem à Comarca da Bahia de Todos os Santos: o primeiro, intitulado Mapa da Comarca da Bahia de Todos os Santos sua divisão desde o rio Jiquiriça athé o rio Real pela parte do Norte; e o segundo, Mapa da Commarca da Bahia de Todos os Santos seguindo a continuação della para o poente. O terceiro mapa refere-se à Comarca dos Ilheos, intitulado Mapa da Comarca dos Ilheos. Os dois primeiros mapas coincidem no registro de alguns logradouros, enquanto o terceiro apenas os localizados nas proximidades do Rio Jiquiriçá.
Legenda do Guia de Caminhantes
Digitalização: Biblioteca Nacional Digital.
Nos mapas, não são apresentadas legendas ou notas contendo informações sobre os símbolos utilizados. Havre (2019, n.p.) sinaliza que há uma “[…] progressão lógica na elaboração dos símbolos, partindo de um simples círculo, no qual são acrescentados detalhes […]”, esta progressão segue a lógica de representação mais simplificada para acidentes de menor proporção, como as fazendas, e mais complexa para os conglomerados maiores como as freguesias e vilas. O autor também destaca que alguns dos símbolos utilizados também podem ser encontrados no Guia de Caminhantes (imagem acima), de autoria de Anastasio de Sant’Anna.
Partindo da necessidade de interpretação dos símbolos usados para classificar os tipos de entidades geográficas, foi realizada uma análise dos mapas para observar a correspondência entre os símbolos neles contidos e os utilizados no Guia de Caminhantes (Figura abaixo).
Legenda para os mapas anônimos
Fonte: Santiago (2021).
Ilustrações
Outro aspecto complementar da iconografia cartográfica diz respeito à informação acerca do ambiente motivador, possibilitando a desambiguação da motivação de topônimos homônimos e a construção de uma hipótese nominativa mais segura.
Topônimo Boqueirão
A análise das ilustrações dos mapas demonstrou uma divergência semântica em que ambas as possibilidades aparecem associadas à ideia de uma [forma geológica semelhante à boca], porém significando: (1) [braço de mar entre duas porções de terra], no litoral, e (2) [abertura nas serras por onde passam os rios], no sertão, ambos registrados em Souza (1939). Nesse caso, a distinção semântica do étimo também resultou em uma diferenciação classificação toponímica, sendo, o primeiro caso, um hidrotopônimo, e o segundo, um geomorfotopônimo. Os dois étimos puderam ser confirmados pelas ilustrações nos mapas que representam o ambiente físico em que os acidentes se encontram (imagem abaixo).


Ilustrações próximas aos topônimos Boqueirão (Santiago, 2025).
Topônimo Brotas
No caso do topônimo Brotas, identificou-se a motivação pelo aspecto físico, um sítio/fazenda próxima à nascente do Rio Subaé (conferir imagem abaixo), assim como pela invocação de Nossa Senhora de Brotas, nas proximidades de entidades geográficas com o mesmo nome: um convento e uma igreja.
Localização do sítio próximo à nascente do Rio Subaé (Santiago, 2025).
Ilustração e signficiado linguístico
O estudo toponímico na cartografia histórica exige a leitura adequada destas fontes não apenas para assegurar a confiabilidade do corpus toponymicum a ser estudado, mas para possibilitar a condução correta da análise destes dados. Tal condução é viabilizada apenas a partir da leitura dos aspectos materiais, os quais podem auxiliar na identificação dos tipos de entidades geográficas nomeadas, bem como fornecer indícios capazes de desfazer ambiguidades que impactam não apenas na aplicação da taxonomia toponímica, mas de determinação do real motivo da atribuição do nome, que é o objetivo da toponomástica.
Saiba mais
Sobre o território da Capitania da Bahia de Todos os Santos
Sobre a cartografia histórica e o estudo dos mapas do passado
Referências
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